Manifesto d'O livro "O menino que espiava para dentro" escrito por Ana Maria Machado.
O livro recebeu fortes críticas e ameaça de recolhimento, porque faz referência aos clássicos da literatura oral como A branca de neve entre outros. Ao atravessar as outras histórias clássicas, o livro traz para si o objeto mágico conhecido por todos: a maçã. Não conto os detalhes para não estragar o bom gosto que o livro tem. Diante das ameaças de alguns "leitores" desavisados, eu escrevi este manifesto pra ser uma das formas de resistência e que todo leitor tenha o direito de escolha do que quer ler.
domingo, 18 de novembro de 2018
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Francisco Gregório Filho Prêmio Rapticula 2017
Francisco Gregório Filho é o Prêmio Rapticula 2017 na categoria Lumière para a humanidade
Durante
alguns anos o contador de histórias vinha sendo observado pelo microscópio da
instituição Rapticula e a soma do seu entusiasmo pelas histórias contadas era
calculada no final de cada dia. O número exato não cabia nele, por isso essa
demora em anunciar o resultado, declara Giselle Ribeiro, presidente a
instituição.
-
Passamos então a fazer várias escutas e ler a sua voz mesclada pelo corpo e
memória. Foi assim que chegamos ao resultado, que nunca se faz exato.
Eis
uma parte do cálculo feito pela instituição para chegar ao resultado do Prêmio
Rapticula Lumière para a humanidade: Francisco Gregório Filho desenvolve
oficinas de contadores de histórias, participou da Biblioteca Nacional, da criação
do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) e da Casa da Leitura, sede
do Programa. Como secretário de Cultura do Acre, implantou as Casas da Leitura
Chico Mendes e Gameleira.
A
contação, diz ele, é importante para melhorar a qualidade da leitura. Há alguns
discursos contrários a essa prática de contar histórias, mas ela é essencial,
ele afirma. “Você se torna leitor com a oralidade, a escrita e as imagens. Não
apenas com o contato com a letra. É a palavra escrita, conectada com a oral,
com o que está em volta e com as imagens. Uma prática não desmerece a outra, e
não é necessária uma hierarquia. O principal é a escuta aliada à expressão.
Para isso, precisamos da quietude, ouvindo uma voz narrando e trazendo uma história,
um texto.
(Anuncia
o vencedor do Prêmio Francisco Gregório Filho e faz acender Lumière para a humanidade).
*Acompanhe
a matéria da premiação amanhã em todos os grandes jornais.
ATENÇÃO: este prêmio é feito de ficção.
ATENÇÃO: este prêmio é feito de ficção.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Isto Explica
ISTO EXPLICA
Adriane Garcia, p. 23 do livro O nome do mundo, 2014
Não fui a menina dos undergrounds
Das agitações noturnas...
Das leituras insólitas
Dos dionisíacos saraus
Meu campus era o campo
Onde eu cavoucava batatas
E ficava feliz, se raro, era doce
Vivi na terra vermelha
Sem xampu, mamãe tentava
Alisar-me os cabelos
Ver se ficava branca
Eu parecia
Mas havia um banzo
Adriane Garcia, p. 23 do livro O nome do mundo, 2014
Não fui a menina dos undergrounds
Das agitações noturnas...
Das leituras insólitas
Dos dionisíacos saraus
Meu campus era o campo
Onde eu cavoucava batatas
E ficava feliz, se raro, era doce
Vivi na terra vermelha
Sem xampu, mamãe tentava
Alisar-me os cabelos
Ver se ficava branca
Eu parecia
Mas havia um banzo
Negra acima de tudo
A alma
Por sorte aprendi a ler
E consegui decifrar as placas
No navio
Cheguei atrasada
Uns mil anos
Para a aula
Sobre Rimbaud.
(resolvi postar hoje esse poema, porque acho saudade um bicho roedor e vim protestar a ausência desta poeta no facebook. Aquele espaço precisa de pessoas criativas, sensíveis e inteligentes, na medida do possível e às vezes, do impossível). Pronto, recado dado.
A alma
Por sorte aprendi a ler
E consegui decifrar as placas
No navio
Cheguei atrasada
Uns mil anos
Para a aula
Sobre Rimbaud.
(resolvi postar hoje esse poema, porque acho saudade um bicho roedor e vim protestar a ausência desta poeta no facebook. Aquele espaço precisa de pessoas criativas, sensíveis e inteligentes, na medida do possível e às vezes, do impossível). Pronto, recado dado.
sábado, 24 de dezembro de 2016
SÃO
25 mil olhos, todos
voltados para a mesma porta. TUDO por uma especulação:
-
Quem há de ser o Prêmio Rapticula 2016?
A
porta travou ontem, parecia de propósito. Por conta disso, o nome ficou preso,
suspenso, sustentado pelas aventuras que ela sempre propõe aos seus leitores.
Até que um passarinho de mil asas, desejoso de outros voos, pousou no fio do
poste daquela rua, rua da Fundação Rapticula e fininho assoviou o nome dela.
Mas, antes fez todo um floreio no seu cantar e, num Rodopio:
Andorinha
me tonteia
quando
cravo os olhos nela.
Eu
debruçado na janela,
ela
voa, voluteia,
voa
ao alto, vem, mergulha.
Quem
me dera ir num pulo
bater
asas junto dela.
p.6.
A
imprensa olhou pro céu, enquanto um avião fumaceiro escrevia o nome dela
anunciando:
Líria
Porto vence o Prêmio Rapticula de Literatura na categoria: Desobediência das Palavras.
O prêmio será
entregue no próximo outono da região Norte.
Enquanto isso, Folha
de São Paulo,The New York Times e Le monde desceram a ladeira para escrever a
notícia em primeira-mão.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
GISELLE RIBEIRO GANHA O PRÊMIO RAPTICULA DE LITERATURA 2016
Categoria: POESIA com língua de fogo
Quando Safo, poeta grega do séc. VII a.C abandonou aquela ilha, cruzando a ponte da vida, entregou o seu fado a outro poeta de nome Pierre Louÿs, um belga do século XIX. Dias e anos se passaram. Talvez décadas. Talvez séculos para que o fado fosse recebido e aceito por outra poeta e bem aqui, no coração da Amazônia, em pleno século XXI, o poeta e ensaísta Affonso Romano de Sant'Anna anuncia a boa nova: O Brasil tem uma poeta com língua de fogo, que escreve com um erotismo vivo e reinventado.
Ela mora no Norte e vive disfarçada de silêncios. Bem poucos sabem dela, mas quando ela crava a sua língua de fogo no ouvido do mundo, digam depressa quem conseguem escapar das verdades do amor? Do amor construído com cuidados na linguagem, mas que não se deixa vencer pelos olhares da moral.
E vem da voz de Affonso Romano de Sant'Anna a boa nova: Giselle Ribeiro vence o Prêmio Rapticula de Literatura 2016, na categoria POESIA com língua de fogo, porque o fogo é aceso desde a dedicatória do livro "69":
"Aos que se libertam do pudor, porque deles é o reino do amor."
E Safo de onde está beijou os olhos de Deus e pediu licença para descer e vim aqui nesta página ler um único poema que fosse do livro prometido:
DOS LAMPEJOS DO AMOR
E se chamasse os astecas ou incas?
Possivelmente, minha pequena Clara,
os olhos deles trariam a antecâmara celeste,
aquele lugar para onde iriam te levar
E quanto a mim, perderia um certo brilho
do que é de ti e invade o meu olhar.
Aqui Morpho Menelaus,
te dei o nome Clara Morpho,
meu epíteto de Afrodite,
o amor está entre nós,
não corremos nenhum risco.
Mas liberdade é também teu nome.
Não te quero presa minha
tampouco te roubar da vida.
Teu nome reconheço: liberdade
e o meu: medo.
Minha pequena Clara
de asa azul-turquesa acetinada
marquemos no relógio
as horas que tu me queres namorada.
(Giselle Ribeiro, p. 26 do livro "69" poemas de amor erótico)
* Este Prêmio é contra indicado para pessoas que acreditam em verdades inventadas. Em caso de suspeita de verdade absoluta, consulte a poeta imediatamente.
domingo, 18 de outubro de 2015
PRÊMIO Rapticula de
literatura
ofídios, cobras, mbóis, mboias e malacatifas... Bem
no meio de um verão escaldante a serpente sai pelo mundo, revira os olhos de
uns, estremece a razão de outros, rompe o fino lacre do poder que tem certas
palavras, as escolhidas e então escritas na melhor ordem possível.
É assim que ELA escreve na
pele nova da serpente. Pele nova. Sempre nova. Cada vez mais nova, porque
“literatura é Novidade que permanece Novidade”. E é assim também que escutamos
da voz de Ezra Pound o anuncio do dia: Sai o prêmio Rapticula de Literatura na
categoria NOVIDADE do INDIZÍVEL.
Mas quem ousou escrever na
pele da serpente? Quem assumiu o risco da picada de certas palavras e soube
então dizer da sua ofidiofilia?
ELA é ítalo-brasileira,
nascida na Eritreia, uma colônia italiana, mas soube nascer também aqui nesse
mundão chamado Brasil e aqui se fazer moça, uma moça tecelã.
Senhoras e Senhores
anunciamos o Prêmio Rapticula de Literatura 2015, na categoria NOVIDADE do
INDIZÍVEL recebido por Marina Colasanti com seu livro “Hora de Alimentar
Serpentes”.
Acompanhe um pedaço da pele
da serpente:
DÉCIMA HISTÓRIA DE INSÔNIA
- Você sabe porque te
chamei? – pergunta o homem ao
cordeiro.
- Sei. – responde o cordeiro
confiante -, para que eu pule a
cerca e mate a tua insônia.
- Perdeu! – diz o homem – Para tirar tua pele
e fazer um casaco, para tirar tua carne e fazer um churrasco. Não sem antes
cortar tua garganta e oferecer-te a Deus. p. 365, 2013.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Michelle Cunha e o Prêmio Rapticula 2014
![]() |
| Michelle Cunha ganha o mundo. O mundo ganha Michelle Cunha. |
Arte
é luz
é sina.
A
Arte
me aluzcina.
Quero
aluzcinarte.
Esses são alguns versos de Affonso Romano de Sant'Anna. Essa também é a proposta da vencedora do Prêmio Rapticula do ano de 2014. Na categora "Eu vejo a vida por cima e por dentro do muro", Michelle Cunha vence e avança na frente com a sua bandeira de Mulher forte, com olhar forte, resistindo aos vendavais que esta vida lhe oferece.
Saiu de Belém, no Norte, seu lugar de origem, para morar em Brasília, e por lá deu nova cor à cidade, sempre tão carrancuda, Brasília se encheu de graça com a passagem desta artista. Depois de ouvir as risadas de Brasília, volta à Belém, porque, talvez, Belém precise novamente dela para compor paisagens mais humanas. Perde-se a humanidade por aqui. Avisam os nativos. E ela veio, resgatar essa humanidade, já quase totalmente perdida.
Saiu de Belém, no Norte, seu lugar de origem, para morar em Brasília, e por lá deu nova cor à cidade, sempre tão carrancuda, Brasília se encheu de graça com a passagem desta artista. Depois de ouvir as risadas de Brasília, volta à Belém, porque, talvez, Belém precise novamente dela para compor paisagens mais humanas. Perde-se a humanidade por aqui. Avisam os nativos. E ela veio, resgatar essa humanidade, já quase totalmente perdida.
Quando a Instituição Rapticula soltou a notícia, o eco chegou até outros países. Foi assim na França com o jornal "Le Monde" que anunciou tudo em primeira mão. Depois, as outras mãos foram liberadas para outros píses. E foi assim que Michelle Cunha ganhou o mundo e o mundo ganhou Michelle Cunha!
Enquando isso, a Instituição Rapticula anuncia, para os desavisados, que esse Prêmio tem caráter ilusório, como a melhor parte das nossas vidas.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
IN BUST é o vencedor do grande Prêmio Rapticula de Literatura
IN
BUST é o vencedor do grande Prêmio Rapticula de Literatura
na categoria “As Funções do Imaginário”
Todos os Jornais escritos e
falados entram na fila pretendendo anunciar o vencedor. Na Instituição
Rapticula, os olhos se voltaram para a porta de entrada e saída, isso tudo quando
ainda era madruigada do dia 23 de maio de 2013 e o mensageiro entregou nas mãos
de um repórter desconhecido o nome daquele que será lembrado como o caminho
para a visão do passado, presente e futuro, porque traz em si, o que Alberto
Maguel considera ser fundamental: “possuir um texto não apenas lendo
atentamente as palavras, mas tornando-se parte de si mesmo.”
Para a decisão do júri, foi
necessário visitar, algumas vezes a XVII Feira Pan-Amazônica do Livro na
tentativa de encontrar aquele que será a marca viva das Funções dos Imaginário
sabendo que “suas comunicações não devem ser dadas ou tomadas com os lábios e a
ponta da língua, mas com o fulgor da face e o coração palpitante”. E quem esteve no Espaço Infantil da XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, conheceu as histórias "Fio de Pão - A lenda do Cobra Norato, Pinóquio, Curupira, Catalendas e se lambuzou todo de encantamento. Dito isto, há um nome que se fez vivamente marcado na XVII Feira Pan-Amazônica do Livro e por tantos dias iluminou o presente com as histórias do passado.
E o repórter desconhecido anunciou no jornalzinho da sua escola primária:
IN BUST É O VENCEDOR DO GRANDE PRÊMIO RAPTICULA DE LITERATURA
na categoria “As Funções do Imaginário”
NOTA DE ESCLARECIMENTO: Rapticula é, antes de tudo, o coração de uma poeta faminto pela arte poética e que resolveu soltar a voz e mostrar aos que aqui passam o ouro da nossa existência.
sábado, 5 de janeiro de 2013
NOTA DE ESCLARECIMENTO: PRÊMIO LUMIÈRE PARA A HUMANIDADE.

Devo dizer que a idéia do Prêmio Rapticula: "Lumière para a Humanidade" é toda ficcional, ou seja, faz parte do imaginário, de um pensamento irreal, do desejo do reconhecimento de grandes trabalhos literários. E o leitor atento, ou o verdadeiro leitor descobriria esse tom ficcional de forma bem fácil, caso ele se permitisse ler os textos do blog, mas lê-los de verdade, ler o que está explícito e implícito, o que está nas linhas e o que está escondido entre elas.
Explico ainda que o blog "NÃO recomendado para os outros", pretende fazer das premiações Rapticula um detector de bons leitores porque considera o avanço tectológico mais um instrumento para a boa formação de leitores, difundindo as produções literárias e os grandes projetos. Por isso alerta: A tecnologia deve existir para o crescimento do nosso pensamento. Para isso deve existir a tecnologia.
Concluindo: a humanidade se entenderia mais se aprendesse a ler os livros, os artigos, as pessoas, o mundo e os seus contextos.
O Prêmio Rapticula, na categoria Lumière para a Humanidade é ficcional, mas o desejo de reconhecimento de alguns belos trabalhos literários é bem real. Pois é de Lumière que a humanidade precisa.
Luz. Muita Luz.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
LE MONDE E THE NEW YORK TIME ANUNCIAM: ney Ferraz Paiva é o novo prêmio Raptcula de Literatura, categoria Poesia (des)Necessária ?
Apenas dois jornais
reservaram um espaço pequeno de duas páginas inteiras para anunciar, não o fim
do mundo, mas uma parte do que vem depois do fim.
E, ponta a ponta das duas páginas
seguiam com a entrevista do poeta Ney Ferraz Paiva que desviando o olhar dos
flashes, acertava em cheio os repórteres com suas respostas em profundidade. E
assim, todos entendiam o resultado do tão esperado Prêmio Rapticula de
Literatura, na Categoria Poesia (des)Necessária?
Em entrevista para os jornais The New York Time e Le Monde, Ney Paiva disse nem mesmo saber que estaria disputando um
prêmio literário. Não sabe, até os dias de hoje, como o nave do nada (nome da obra vencedora) foi parar nas mãos do júri do
Prêmio Rapticula de Literatura.
E quando foi interrogado da
importância do prêmio e da categoria, o poeta disse que nunca pensou ser
companhia dos clássicos nas estantes e disse saber que a categoria Poesia
(des)Necessária deveria ser tão respeitada, porque julga que os livros deveriam
estar nas mãos dos leitores e não fechados em certas estantes ao lado de nomes
conhecidos de obras nem sempre lidas.Talvez o nave do nada tenha sobrevoado tantos espaços vazios, tantas cabeças desocupadas e por isso tenha feito um pouso forçado nas fronteiras do júri Rapticula.
Talvez Deus saiba dizer do percurso e
da chegada do nave do nada neste novo
destino. Mas eu sou ateu e não tenho interesse algum em perguntar pra ele.
Disse Ney Ferraz Paiva na sua
entrevista de duas páginas dos jornais Le
Monde e The New York Time.
E seguimos com um pequeno pedaço da
asa do nave do nada:
Sentado na
cadeira do poeta
Eu vi o
maro mar & sua serpente sépia
o fervor a pronúncia áspera das águas
de uma palavra que conduza os mortos para o outro mundo
boca que a loucura gostaria de ter
mar em que o último irmão se removeu até o fundo
arrastado pelos pássaros
cansado de nada encontrar
tudo o que não fala tem uma segunda morte.
nave do nada. p.73
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
POETA GISELLE RIBEIRO GANHA PRÊMIO RAPTICULA DE LITERATURA
Deu em todos os jornais da
cidade, em todos os jornais do estado, em todos os jornais do continente: poeta
Giselle Ribeiro ganha prêmio Rapticula de Literatura.
Convocada para uma coletiva, a poeta
não compareceu, não justificou a ausência, tampouco se desculpou.
Os jornalistas presentes na coletiva
tiveram que se contentar com a ausência da poeta para falar do assunto. E as
tentativas de ter o que dizer foram nulas.
Soube-se, porém, no início da noite
da coletiva, que a poeta foi mandada a um hospício e lá se mantém desfilando a
sua alta costura.
Soube-se também, que a poeta Giselle
Ribeiro ganhou o Prêmio Rapticula de Literatura com livro que jamais foi, nem
nunca será publicado.
Para
saber mais,ou menos, leia os jornais da cidade, do estado, do continente
ou
visite o hospício para onde a poeta foi mandada:
Assim
fica dito. Assim será.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
MARIA LÚCIA MEDEIROS. MENTIRAS E VERDADES NO MESMO CHÃO
ilustração João Caetano
Não me negues a palavra. Pelas artes
de uma palavra segui sozinho ouvindo o grito de outros companheiros a percorrer
outro caminho. Naquele tempo, senhora, os pântanos me atraiam e os arrepios do
meu corpo aumentavam a visão dos esverdeados, meu corpo fremia. Não me negues a
palavra. Pelas artes de uma palavra abri picada diferente que não me levava ao
bosque. Ouvia meus companheiros rirem e chorarem fascinados com as veredas, os
frutos quase ao alcance das mãos. O meu caminho, senhora, tinha reverberações
encantatórias, mentiras e verdades no mesmo chão e o veneno das folhas eu só
podia descobrir pelo exercício do meu paladar e do meu corpo. Poderá algum
coração, senhora, saber das tantas vezes que tive a beira da morte pelas ânsias
de saciar o meu desejo?
Enquanto meus companheiros avançavam
em rodopios e encantamentos, eu vencia distâncias tão pequenas que me parecia
estar sempre no mesmo lugar.
Não me negues a palavra de cujas artes se
nutriu tanto exílio pois se assim o fizeres estarás negando a permissão e as
promessas. Não é esse o silêncio de que preciso para atravessar a floresta.
Imposto o sossego me faltarão os sons articulados, os ruídos para que não
percamos a memória. Não me negues a palavra para que a trilha não se altere nem
as perspectivas sejam removidas.
Maria Lúcia Medeiros. Quarto de hora, 1994.p.53.
MARIA LÚCIA MEDEIROS - "A FRONTE PÁLIDA"
ilustração de João Caetano. Roubada do livro A maior flor do mundo
Nasceste em noite de loucura,
nascituro sim, e os primeiros sinais foram precedidos por arrepios fugazes de
um gozo inocente, prazer restituído, aproximação maravilhosa, encontro aquecido
a cada segundo em que tua imagem mergulhava em nitidez.
Ver teu ombro primeiro, depois a nuca
e ver ainda inflamar-se o desejo de trazer-te inteiro, arrancar-te do limbo das
nebulosas, acariciar com o meu temor a fronte pálida. Tomar-te nos braços e
iniciar o rito banindo primeiro a malícia, os arrependimentos, a mentira.
Escolher as palavras, as sagradas
sim, iniciar o gestual do encantamento, o eterno rir, proteger teu corpo
buscando a perfeição. Não ter descuido, antes cuidar para que a insensatez não
se enredasse nesse enredo.
Sensível, desprezar o perverso, fugir
dos malefícios. Umedecer teu chão, plantar-te, nomear-te, fazer-te verbo.
Vigília iniciada, vigília empreendida, localizar casa e casal, demarcar território
e edificar o tempo da memória.
Houve que um dia nem pela terceira vez
o cantar do galo foi ouvido. Um malsinado gesto interrompeu origem e saga e,
para punir o sono da vigília, a dor foi imposta sem misericórdia.
OS GLÓBULOS NEGROS DE GEÓRGIA CORRÊA MARQUES
Colagem: Geóriga Corrêa Marques
Tenho
inscrito no pêlo do leopardo
vários nomes que são meus
Vou
junto com a barba rala do homem velho
que quase caminha pela praia
Às
vezes eu sou a bala rápida
atravessando o coração do cimento
Mas
não venha me dizer que sou
o beijo de namorado
lábio dente língua cabelo
no banco da praça
Nem o traço doido da paisagem
criança música
o cheiro de livro velho
Talvez
eu seja sim
o beijo
e o deserto feio da criança
Talvez
nem seja o meu nome
que
corre pelas savanas caçando zebras
Nem
barba lâmina velho areia
Nem
projétil rápido
(lendo porque em coração
nada é ligeiro
tem que ser atemporal
navegar o sangue devagar
até o pulmão – voz louco
grito sopro.)
Geórgia
Corrêa Marques. Glóbulos negros.
1995. p. 25
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
BIOGRAFIA DESNECESSÁRIA
A escritora Giselle Ribeiro é foucaultiana e, vez por outra, registra o seu pensar o autor. E o que quer dizer ser foucaultiana? Quer dizer que a escrita literária deve ter um lugar mais seguro, sagrado, reservado ao leitor, quer dizer também que o autor deve sair da cena para dar vez a voz poética. E foi esse pensar que gerou o poema "Biografia Desnecessária", dedicado à escritora Fernanda Young:
Fernanda Young
BIOGRAFIA DESNECESSÁRIA
Fernada Young na infância,
sofria de asma,
o ar lhe parecia pouco,
muito pouco.
Mas as palavras
sempre lhe pareceram muitas
ou tantas...
Por isso cresceu poeta.
(do Pequeno Livro de Poemas para Vestir Bem. p. 9)
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